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LENDAS SANJOANENSE
 

    

IRMÃO MOREIRA

Trabalho Literário de Lincoln de Souza.

O IRMÃO MOREIRA

Filho de uma das mais distintas famílias são-joanenses era Francisco Moreira da Rocha um incorrigível

estróina, cuja vultosa fortuna dissipava à larga com bebidas, mulheres fáceis, jogatinas e toda sorte de

pândegas e libertinagens.

Sua fama correra todos os quatro pontos cardeais da cidade. Era o terror dos lares honestos. Não havia

quem lhe desconhecesse as aventuras escandalosas, e a vida dissoluta que levava parecia jamais ter fim.

Certa vez, porém, errava a horas mortas pelas imediações da igreja do Carmo quando, inesperadamente,

saindo de uma esquina, passou rente a ele uma estranha mulher, alta, ondulante, de grandes olhos

perturbadores, elegantíssima em rico vestido negro, como um lírio envolto em crepe.

Moreira acompanhou-a, fascinado. Falou-lhe. Ela sorriu, sem responder. E, como um

sonâmbulo, sem que desse por onde andava, entrou em casa dela - uma casa muito branca, inteiramente

de mármore e cercada de ciprestes.

No outro dia, com o corpo dolorido, os membros lassos, entorpecidos, despertaram. Nem no leito de

plumas em que se deitara na véspera, nem nos braços de seda daquela misteriosa criatura, que nem uma

única palavra sequer pronunciara, mas sobre uma lousa fria do cemitério do Carmo!

Moreira compreendeu imediatamente, trazido de pavor, que a mulher com quem ele dormira não era

senão o demônio, ao qual sua alma talvez já pertencesse de todo. Numa inquietação que aumentava cada

vez mais, sob uma crise de nervos raiando pela loucura, procurou depressa um padre, a quem contou o

que lhe sucedera. Depois de confessar seus pecados e profundamente arrependido, assentou de levar vida

pura e piedosa. Para começar, no mesmo dia retirou do banco seus haveres e distribuiu-os com a pobreza

e instituições de caridade. Em seguida, tomando um hábito e com o nome apenas de Irmão Moreira, saiu

para o mundo, esmolando para os necessitados, pregando o bem e curando enfermos, como Jesus, com o

simples contato de suas mãos.

 

Trabalho Literário de Lincoln de Souza

O RETRATO

Padre Ernesto lia com fervor o seu breviário, quando uma senhora de certa idade, em cuja fisionomia se

estampava bondade e distinção, modestamente trajada, foi pedir-lhe que confessasse o filho, que se

achava doente, guardando o leito. Ele não a conhecia, como, aliás, não conhecia quase ninguém, visto ser

de fora e ter chegado à cidade havia pouco. Sem demora, largou o livro, pôs o chapéu na cabeça e saiu.

Na rua, ela falou-lhe:- O senhor não dirá que foi chamado expressamente para vê-lo. Proceda de maneira

que a sua presença não o impressione. Ele está sofrendo do coração e qualquer abalo o pode vitimar.

Residimos na Rua de Santo Antônio, na quarta casa do lado esquerdo de quem vem do largo do Rosário.

Não tem número, mas não haverá dificuldade em encontrá-la. Eu daqui sigo para Barro, em busca de um

remédio e como, ao meu regresso, já não o encontrarei mais em casa, porque me demoro, desde já me

despeço do senhor e muito de coração lhe agradeço a caridade. Boa noite.

- Boa noite. Vá com Deus!

- Amém.

Padre Ernesto ia pelo caminho pensando no que devia dizer, a fim de justificar sua presença e não alarmar

o enfermo. Após andar cerca de vinte minutos, estava em frente da casa indicada. Bateu à porta. Veio

atendê-lo uma jovem, toda de luto fechado. Depois de cumprimentá-la:

- Posso fazer uma visitinha ao querido doente?

- Pois não! Faça o favor de entrar.

Entrou. A beira do leito do rapaz:

- Estou hoje correndo o bairro, Senhor Como se chama?

- Alfredo, um seu criado.

- Agradecido. Mas, como ia dizendo Sr. Alfredo, estou correndo o bairro, para travar conhecimento com

as minhas ovelhas. Sou novo aqui. O senhor é católico, já sei...

- Católico, apostólico, romano.

- Muito bem. E tem-se confessado regularmente?

- Tenho, mas este mês...

- Compreendo: as coisas mundanas o têm absorvido mais que a religião... E se, por acaso, morresse de

repente, agora, amanhã?!

Não sabemos nunca o dia da nossa partida... E, se tal acontecesse, não iria em pecado? Já pensou nisso,

Sr. Alfredo?

- Francamente, não pensei... O senhor tem razão.

- Bem. Já que aqui estou, não quereria aproveitar a ocasião e resgatar essa falta?

Rapaz bastante religioso, não relutou: confessou-se.

No dia seguinte, foi grande o espanto de Padre Ernesto quando soube que a ovelha da véspera

amanhecera morta, com espanto também do próprio médico, visto que o estado do doente não parecia

grave.

A família, que simpatizara com o confessor de Alfredo, chamou-o para a encomendação do corpo, em

casa. Padre Ernesto foi. Após o oficio fúnebre, os seus olhos deram com a ampliação fotográfica de um

busto de mulher, na parede da sala de visitas, cercado de flores.

Reconhecendo nela a mãe de Alfredo, que tão providencialmente o fora chamar para confessá-lo na

véspera de sua morte, falou a uma das moças da casa:

- É verdade, a senhora sua mãe... Imagino-lhe a angústia! Desejaria confortá-la no transe que atravessa.

Posso vê-la?

- Ah! Impossível! Nossa pobre mãe...

Padre Ernesto franziu a testa, sem compreender.

- Impossível?

E fixou novamente o olhar no retrato da senhora que o procurara.

- Sim, infelizmente, - disse a moça.

E numa infinita tristeza, com os olhos inundados de lágrimas:

- Faz hoje, precisamente, três meses que ela morreu.

Trabalho Literário de Lincoln de Souza

SEGREDO

No pequeno sobrado em que funcionou, há tempos, um departamento do Ministério da Agricultura,

situado atrás da igreja de São Gonçalo Garcia, residia outrora um opulento capitalista, de nome Rogério,

casado com uma senhora cuja perversidade era o terror da mísera escravaria às suas ordens.

Entre os escravos havia uma jovem mulata chamada Julieta, cuja beleza e juventude alvoroçaram, logo

que chegou os sentidos do senhor, homem forte, másculo e ainda relativamente moço.

A maneira branda por que, desde o primeiro dia, começou a tratar a nova escrava, despertou incontinente

os ciúmes da esposa, dona Jacinta, que exigiu o mais depressa possível a venda da rapariga, com o que

não concordou Rogério, visto as razões secretas que tinha para conservá-la em seu poder.

Suspeitando do esposo, pôs-se dona Jacinta a espioná-lo, habilmente, e foi sem grande dificuldade que

ficou sabendo que Julieta era algo mais do que simples escrava.

Não deu a menor demonstração do que acabava de verificar. Tornou-se até mais carinhosa para com o

marido, a quem, dali por diante, deixou de falar na venda de Julieta.

Um mês depois, Rogério fazia anos. A mulher quis ela própria, fazer o jantar. Aliás, não foi um jantar

apenas melhorado que dona Jacinta apresentou no dia, mas um verdadeiro banquete. Era grande a

variedade de pratos que enchiam a mesa, mas, entre todos, aquele de que mais gostou Rogério foi um de

picadinho de coração, muito de seu agrado e de que só ele comeu e repetiu mais de uma vez, deliciado.

Findo o repasto, horas depois, precisou de Julieta. Chamou-a em voz alta. Não teve resposta. Estaria no

quintal? Gritou da varanda, com mais força. A rapariga não respondia. Mandou que a procurassem.

Ninguém a encontrou. Desconfiado de que a mulher a tivesse vendido à sua revelia, interpelou-a

ardilosamente:

- Será que a mandou a alguma parte, Jacinta?

- A Julieta?

- Sim, a Julieta! - exclamou Rogério, já de mau humor.

- Bem, o coração tu o jantaste. O resto não sei, pergunta ao Bento.

Tudo fora feito em segredo: o assassínio, a abertura do peito, a retirada do coração, com a desgraçada

ainda viva, fortemente amarrada e com a boca entupida de pano, para que não se ouvissem seus gritos.

Em seguida, o enterro ali mesmo, onde se consumara o hediondo crime.

Os escravos sabiam que Julieta tinha ido, durante o dia, com a senhora e o Bento - escravo mau, que

aplicava os castigos - para uma capoeira próxima da cisterna. Depois disso, nunca mais a viram. Curiosos,

perguntaram ao odiado companheiro e algoz o que tinham ido fazer os três no lugar de onde não mais

voltara a bonita mulatinha.

- Ali há um segredo. . Não posso dizer... Pagaria com a vida.

E o local da tragédia ficou sendo, para os escravos, O Segredo, - denominação esta que, mais tarde, se

estendeu aos arredores e até hoje se conserva.

A BISBILHOTEIRA
 
Trabalho Literário de Lincoln de Souza

Embuçada no seu negro capote, com o escuro lenço em volta do queixo cobrindo-lhe a cabeça toda branca, encorujada e pergaminhenta, era o tipo clássico da velha capoteira, atualmente desaparecido.

Pela manhã, muito cedo, entrava na igreja do Carmo, molhava os dedos nodosos na pia da água benta, persignava-se, ajoelhava-se e entrava a bater contas sobre contas do seu ensebado rosário. Mal acabava a missa do Carmo, ia ainda apanhar a da Matriz. A noite, não perdia novenas nem terços, chovessem pedras. Confessava-se quase todos os dias e comungava freqüentemente. Os próprios padres já se aborreciam com o crescente beatismo daquela velhota abominável. Chamava-se Gertrudes, mas toda gente a conhecia por Tia Tude. Tia Tude benzia contra o quebranto, ensinava remédios, fazia companhia a enfermos e, não raro, exercia o papel de alcoviteira. Vivia do produto de rendas, por ela tecidas, e de monstruosas bonecas de pano, que fazia com trapos pedidos às costureiras. Entrava em todas as casas, dava-se com todo mundo. Almoçava um dia com um, jantava outro dia com outro, e falava de todos é de tudo. Nada havia que ela ignorasse, nem mesmo os fatos mais íntimos, passados entre quatro paredes, sem testemunhas e guardados com absoluta discrição. Parecia que a velha bruxa adivinhava. De casa em casa, ia ela contando, como um jornal falado, as novidades da terra e, ao mesmo tempo, tomando nota do que via para passar adiante. Não contente com o que farejava durante o dia, ela, à noite, postava-se por trás da persiana do seu mísero casebre no Morro da Forca e, sem que ninguém a visse, ficava horas e horas a espiar os que passavam na rua, o ouvido atento às suas conversas.

A vida alheia era o seu fraco.

Uma noite, como de costume, estava em seu posto de bisbilhoteira, quando alguém, que ela não tinha visto aproximar-se, lhe bateu aporta. Tia Tude abaixou-se, deslizou como uma gata para os fundos, sem fazer o mínimo ruído, e de lá voltou pisando forte, para fazer crer que não estava ali atrás da persiana, no seu desprezível mister.

- Quem é? - perguntou, a medo, do lado de dentro, sem se mostrar.

- Um desconhecido, que lhe vem pedir o favor de guardar um objeto até amanhã.

Tia Tude, prestimosa como sempre - "Pois não!" - abriu um palmo apenas da janela, estendeu o braço esquelético e recolheu o que lhe entregavam: uma tocha.

Não deixou a velha de ficar intrigada com o caso. O relógio bateu horas e ela, depois de fechar a porta a chave, deitou-se.

No dia seguinte, logo cedo, a primeira coisa que fez foi correr os olhos pelo objeto que lhe entregara o desconhecido, e que ela colocara cuidadosamente a um canto da sala. Seu espanto foi tremendo: em lugar de uma tocha, ali estava, ainda sujo de terra fresca, nada menos que um fêmur de defunto!...

Tia Tude, transida de pavor, viu nisso um aviso celeste. E contam que nunca mais a sua boca se abriu para falar da vida alheia.

Trabalho Literário de Lincoln de Souza

A MULA SEM CABEÇA

Venâncio voltava tarde do arraial do Rio das Mortes e estava quase a entrar na cidade quando ouviu, não

longe, relinchos de alimária. Por uma natural associação de idéias, pensou, incrédulo, nas mulas sem

cabeça que - dizia-se - às sextas-feiras da quaresma, depois da meia-noite, erravam pelas encruzilhadas,

deitando fogo e atacando os que encontravam em seu trajeto.

Aflito para chegar a casa (já havia batido meia-noite e era justamente uma sexta-feira da quaresma).

Venâncio caminhava então apressadamente quando, nas proximidades do cruzeiro do Betume, avistou

uma tremenda mula sem cabeça, toda em chamas, que corria velozmente em sua direção. Sem

possibilidade de fuga, o animal em poucos segundos já estava a alguns metros de distância, Venâncio não

teve outro recurso senão enfrentá-lo e, quando este o atacou, desferiu-lhe com a foice que trazia, e com a

qual fora fazer uma roçada num sítio, um golpe tão certeiro e tão firme, que lhe fez voar longe a pata

dianteira. O monstro soltou um relincho terrível e desapareceu para as bandas do Rio das Mortes.

Pela manhã, soube Venâncio que, muito cedo, perto do local da sinistra ocorrência, encontraram sobre a

relva a mão de uma mulher. Como havia rastro de sangue, foram-no seguindo e, a uns duzentos metros,

mais ou menos, deram com uma pobre lavadeira do bairro, caída de bruços numa vala, morta, uma perna

partida e a mão direita decepada.

 

Trabalho Literário de Lincoln de Souza

O SACRÍLEGO

Meia-noite já havia soado, quando um desconhecido bateu à porta da casa de padre Antônio, lá para as

bandas do Tijuco.

Vinha buscá-lo. Para que? Só a ele poderia dizer. Via-se estampada no semblante do misterioso indivíduo

uma aflição imensa. Despertaram o prestimoso sacerdote, que não tardou a ir ao encontro de quem o

procurava.

- Desculpe incomodá-lo, senhor reverendo, mas é tão necessária a sua intervenção!... Trata-se de salvar

uma alma. Não podia deixar para amanhã.

- Ora, meu filho, nada tenho que desculpar. Eu me sinto verdadeiramente feliz quando posso socorrer os

que precisam de mim. Confissão? Extrema-unção? Onde?

- Igreja de São Francisco de Assis.

Padre Antônio ficou perplexo, sem atinar... Fazer o que, num templo, aquela hora?

O outro, compreendendo a estranheza, esclareceu:

- Imagine que um pobre pecador comungou sem que se houvesse confessado, momentos antes de morrer.

Venho aqui pedir-lhe a grande esmola de retirar a hóstia da boca do cadáver.

- Mas já deve ter-se delido.

- Não. Afianço-lhe que não.

Padre Antônio pensou na intervenção divina.

- Está bem! Vestiu-se, tomou o breviário, colocou o chapéu na cabeça e pôs-se a caminho, acompanhado

do desconhecido.

O bom religioso não sabia explicar a causa, mas sentia qualquer coisa de anormal, uma certa inquietação

de espírito, que lhe provocava arrepios, de quando em quando.

Uns quartos de hora depois, defrontavam a igreja: estava aberta e toda iluminada, como em dia de festa.

Entraram. Nenhum vivente. Bem ao centro da nave, sobre a essa, um caixão pobre, coberto de chita preta,

ordinária sem dourados. Caminharam para ele. Padre Antônio levantou-lhe a tampa, descobriu o rosto do

defunto, abriu-lhe, a custo, a boca fria e rígida, e extraiu-lhe a hóstia. O desconhecido tinha razão: não se

dissolvera, estava perfeita. Depois de guardá-la no altar-mor e rezar por alma do morto, diante do caixão

cada vez mais impressionado, o piedoso sacerdote voltou para casa.

Só na rua, refletiu que não vira o sacristão nem à entrada nem à saída da igreja. Parou, intrigado, e volveu

o olhar em direção ao templo: estava fechado e as luzes apagadas. Achou tudo aquilo fantástico,

desconcertante... E pôs-se a caminho, de novo, quando ouviu alguém chamá-lo. Era o desconhecido.

Esquecera-se de agradecer-lhe.

Até ali, Padre Antônio não havia reparado nas suas feições, mas agora, depois que ele lhe estendera as

mãos frias, horrivelmente frias, num aperto angustioso, notou que aquela fisionomia não lhe era estranha.

Ele já vira alguém com aqueles mesmos cabelos empastados, aqueles olhos amortecidos, aquela boca

repuxada e sem cor... Onde? Quando? Aquele rosto... Ah! - lembrou-se - e quase desmaiou, num pavor;

num arrepio de morte: o homem que o fora chamar o que estava ali à sua frente, não era outro senão o que

jazia momentos antes, dentro do caixão - o defunto!

E Padre Antônio, antes mesmo de voltar a si de seu grande assombro, viu o estranho indivíduo

empalidecer ainda mais, tornar-se de súbito vaporoso e desfazer-se, em poucos instantes, como a fumaça

ao vento, na solidão da noite.

Trabalho Literário de Lincoln de Souza

CRIANÇA DESAPARECIDA

Em vão, durante todo o dia, aquele bando de escravos varava campos e matas, em todas as direções, à

procura do filho mais novo dos senhores, que desde cedo desaparecera.

Durante a tarde inteira brincara com os irmãos, no pátio da fazenda - dizia-se - depois se afastara para os

lados da senzala e, daquele momento em diante, ninguém mais lhe soube o paradeiro.

A noite, após baldada busca, em intervalos mais ou menos longos, de hora em hora assomava à velha

porteira da fazenda um escravo cansado, faminto, coberto de pó, julgando que outro companheiro mais

feliz já houvesse encontrado e conduzido a casa o pequeno fugitivo. Era, porém, grande a surpresa

quando iam ficando a par da triste realidade.

E todos foram voltando, todos - até o último... Desceram ao fundo dos precipícios, galgaram serras,

percorreram capoeiras e selvas, foram até a pirambeira perto da lavoura de café, sondaram todos os

fundões do córrego, indagaram dos lavradores da redondeza, dos tropeiros da estrada: tudo inútil.

Ninguém o encontrara, ninguém o vira, ninguém!

A agonia da pobre mãe, mais do que a do pai, era indescritível. Soluçava, rezava, alucinada. Queria o

filho, vivo ou morto, fosse como fosse - queria-o! "Procuras-em-no mais, toda a vida, sempre!..." -

exclamava num pranto lancinante. Não, não era possível, Deus, aquele pequenino anjo de três anos,

perdido na noite imensa, na mata imensa, povoada de felinos sanguinários! ... E, quando, com infinita

dificuldade, a impediam de sair, como uma louca, para talvez lançar-se no despenhadeiro da divisa, eis

que ouviram, lá fora, uma voz débil, quase imperceptível, de criança. Era ele! Era ele que voltava, assim

mesmo como pela manhã, lindo, limpo, cabeceando de sono e pedindo à mãe que o fizesse dormir.

Em vão, crivaram-no de perguntas.

- Foi uma moça, mãe... - e não sabia dizer mais nada.

No domingo seguinte, toda a família dirigiu-se ao arraial para, como de costume, ouvir missa. Penetraram

no modesto templo rural. Desta vez cem mais fervor, porque iam dar também graças a Deus pelo

verdadeiro milagre, que fora a reconquista do ente querido já dado como morto.

Na igreja, os olhinhos espertos do garoto passeavam distraídos pelos anjos dourados das paredes, pelos

painéis apocalípticos do fôrro, pelos ornamentos fulgurantes dos nichos... Eis senão quando, cheios de

infantil surpresa, viram lá longe, lá longe.

-Mãe!... - e puxou-lhe de leve o vestido de cassa. - Olha: está lá a moça que me levou para casa!

- Onde, meu filho? Onde? E levantou depressa a vista do rosário, na ânsia de conhecer a criatura que, de

tão nobre, nem lhe quisera aparecer para o abraço comovido de gratidão.

- Está lá, mãe... lá em cima... Olha!

E o pequenino indicador do inocente, com assombro de todos, apontou, no altar-mor, a imagem de Nossa

Senhora das Graças que, no seu nicho todo azul, banhada na luz pálida dos círios, envolta em seu manto

de estrelas, parecia sorrir.

Trabalho Literário de Lincoln de Souza

CHICA MAL-ACABADA

Era tal o ciúme daquela criatura que, todos os domingos, na igreja, ao invés de ouvir atentamente a missa,

metia um espelhinho no livro de orações e, fingindo que rezava, punha-se a espionar, de baixo, o amante,

que tocava violino no côro.

Chamava-se Francisca das Dores, mas só era conhecida pela alcunha de Chica Mal-Acabada, tal o seu

físico de anã e as suas feições grosseiras de botocuda.

Certa vez, uma companheira a surpreendeu no templo com os olhos fincados no espelho. Compreendendo

tudo, advertiu-a à saída que aquilo era um enorme pecado. Deus podia castigá-la. Chica Mal-Acabada riuse.

Qual! Não aconteceria nada!

Um domingo, estava ela, como sempre, a olhar o amante pelo espelho, quando viu lá dentro qualquer

coisa medonha, indescritível.

Soltou um grande grito que alarmou os fiéis, e rolou ao chão, desmaiada. Levaram-na para casa, ainda

sem sentidos. Quando voltou a si, não teve mais uma hora de sossego: a visão diabólica perseguia-a já

fora do espelho, por toda parte. Recolheram-na ao pavilhão dos loucos da Santa Casa de Misericórdia,

num estado comovente. Estava, às vezes, calma, conversando com uma amiga quando, de repente, tapava

os olhos com as mãos e se punha a gritar de um modo arrepiante:

- É ele! É ele! É ele!... E rolava por terra, numa crise tremenda, espumando, mordendo-se e batendo a

cabeça contra o assoalho, despedaçando o vestido... Depois, passado o acesso, caía num profundo estado

de prostração, deitava-se e dormia logo.

A noite, as crises redobravam de intensidade. A horas mortas, todos dormiam, quando os gritos

desesperados de "É ele! É ele! É ele!..." despertavam e punham em sobressalto os doentes, irmãs de

caridade e empregados da pia instituição. Os guardas então seguravam-na fortemente, a fim de evitar que

ela cometesse desatinos. Fórmulas e mais fórmulas que os médicos receitavam, benzeduras de padres

levados pelas amigas, amuletos de feiticeiros que o amante lhe colocava ao pescoço, de nada valiam: cada

vez piorava mais. Três meses depois, era quase um cadáver. Foi nesse estado, de extrema fraqueza, que

uma pneumonia a surpreendeu. O seu último dia foi horrendo, impressionante. Ela jazia no leito, sob uma

febre violentíssima, quando lhe veio a derradeira crise. Antes mesmo que tivessem tempo de contê-la,

saltou da cama aos costumeiros gritos de "E ele! É ele! É ele!..." e, em segundos, meteu furiosamente os

dedos pelas órbitas, arrancou o olho direito, em seguida o esquerdo, e os espremeu nas mãos

ensangüentadas, dando gargalhadas sinistras, numa volúpia sinistra. Depois, caiu por terra, arquejando

com aqueles fundos buracos no rosto, jorrando sangue, a boca a escorrer espuma e baba.

Quando a levantaram, estava morta.

 

Trabalho Literário de Lincoln de Souza

A MISSA DAS ALMAS

A veneranda senhora Virgínia Cabral despertou de seu profundo sono, com as conhecidas badaladas do

sino da Matriz de N. S. do Pilar, chamando os fiéis para o tradicional ofício religioso denominado "Missa

das Almas".

- "Quê! Já 5 horas?" - E, sem consultar o relógio, ainda sonolenta e tiritando de frio, vestiu às pressas sua

eterna saia preta de viúva, passou o xale em volta dos ombros e rumou para a igreja.

Na sua miopia de octogenária, não reparou nas feições dos que lá se encontravam, mas percebeu que o

templo se achava repleto e o padre, no altar-mor, se movia de um para outro lado com tal leveza como se

fosse feito de fumaça.

O rosário ia correndo lentamente entre os seus velhos dedos descarnados, os seus olhos se perdiam num

êxtase beatifico ante a imagem da Virgem, quando ouviu o relógio da torre bater horas . Começou

mentalmente a contá-las. Céus, não estaria enganada?! - Quatro... cinco... seis... sete... Sentiu tremer-lhe

todo o corpo. Oito... nove... E quando soaram as doze horas - doze horas da noite e não do dia como por

encanto, tudo desapareceu: padre, sacristão, fiéis, as luzes se apagaram e as portas se fecharam por si!..

Em a nave imensa, um silêncio de túmulo!

Então, presa naquele recinto solitário, em plena treva, e compreendendo, afinal, que participara de um

ofício celebrado e assistido por mortos, tomada de indescritível pavor, rolou pesadamente ao solo,

desacordada.

E quando, no dia seguinte, o sacristão abriu a igreja, para a costumeira Missa das Almas, Virgínia

continuava ali, junto à porta principal, por onde certamente procurara fugir, lívida como um cadáver,

ainda sem sentidos, sobre a frialdade dos ladrilhos.

Trabalho Literário de Lincoln de Souza

O DEFUNTO QUE O DIABO LEVOU

O coronel Carlota (coronel da antiga Guarda Nacional) era um riquíssimo traficante de escravos, já idoso,

calvo e gordo, que residia com a família num sobradão quase centenário, à época, nas proximidades da

igreja do Carmo.

A enorme riqueza material desse homem contrastava, porém, com sua imensa miséria moral. Era um

indivíduo perverso, de tal maneira perverso, que martirizava os infelizes escravos que lhe pertenciam, não

porque cometessem algum delito, mas unicamente para vê-los delirar de sofrimento. Muitos deles fugiam

ou se suicidavam, quando lhe caíam nas garras. Aliás, não eram só os desgraçados pretos as vítimas desse

tarado satânico - a família também sofria terrivelmente sob seu jugo implacável. Era corrente que a filha

mais velha fora por ele próprio envenenada, por apenas recusar um fazendeiro bronco, de idade avançada,

enfermiço e autor de muitas mortes, o qual, só pelo seu ouro, o coronel queria para genro.

Prosperavam os negócios do desumano traficante de escravos e preparava-se ele para uma viagem ao

sertão, quando o destino lhe mudou o itinerário, mandando-o viajar para o cemitério.

A notícia de sua morte não causou nenhuma tristeza, como era de esperar, dada a antipatia que a cidade

em peso lhe votava. Quase ninguém subia as escadas do velho sobrado, para ver a máscara do morto ou

levar pêsames à família. A repulsa era evidente.

Ora, nesse dia, um estranho acontecimento se passou, de que só mais tarde se veio a saber. Foi o caso que,

tendo ficado, um instante, o cadáver sozinho na sala, quando a esta voltou a primeira pessoa da casa, uma

grande surpresa a esperava: o defunto havia desaparecido!

Houve o justificado alarme. A família, aturdida, assombrada, não achava explicação para o fato a não ser

a intervenção do sobrenatural. "Era um velho tão mau, que falava tanto de Deus... - comentavam.

Baldadas todas as buscas, e a fim de evitar escândalo, colocaram no caixão, para fazer peso, um grosso

tronco de bananeira e depois o fecharam. Quando alguém, que chegava, pedia licença para ver o morto,

diziam:

- Queira desculpar, mas não é possível. Está-se decompondo horrivelmente. Tivemos ordem de não abrir

mais o caixão. A tarde, os funerais foram feitos, com meia dúzia de pessoas, apenas, a acompanhar o

corpo.

E dizem que, naquela noite, longe, muito longe da cidade, por uma deserta encruzilhada, passou, a horas

mortas; numa carreira louca, um cavaleiro de esporas fosforescentes, alto, magro, anguloso, chispando

fogo e levando à garupa de um cavalo fantástico o cadáver do velho coronel, envolto em lúgubre

mortalha, que esvoaçava sinistramente ao vento.

Trabalho Literário de Lincoln de Souza

SENHOR MONTE ALVERNE

A mesa da confraria da irmandade de São Francisco de Assis reunira-se, pela segunda vez, na casa da

respectiva Ordem, a fim de deliberar a respeito de uma imagem do Senhor do Monte Alverne, que ia ser

colocada no altar-mor da referida igreja.

Tomando parte na assembléia brasileiros e portugueses, por um natural impulso de patriotismo, queriam

os primeiros que a imagem fosse esculpida aqui, os segundos, em Portugal.

Ainda dessa vez não foi possível acordo, ficando o caso para ser discutido em outra assembléia.

Eis senão quando, à casa da Ordem foi bater um peregrino, desconhecido na cidade e que, à mingua de

recurso, pedia pousada por uma noite. Atendido pelo encarregado, foi-lhe destinado um aposento no

porão, onde ele depressa se acomodou, fechando a porta a chave.

Não trazia nenhuma bagagem, um simples bornal sequer, nada.

No outro dia, ninguém viu o estranho personagem. O quarto que lhe deram estava; com a porta e janelas

fechadas. Não quiseram incomodar aquele pobre velhinho de barbas de neve: talvez estivesse muito

cansado. Ao segundo dia, porém, o quarto continuava na mesma situação. Gomo, desde que chegara, não

o viram sair ao menos uma vez, nem ouviram o mínimo ruído lá dentro, suspeitaram que ele houvesse

adoecido, a ponto de não poder erguer-se do leito, ou mesmo que tivesse morrido. Já inquietos, então,

bateram à porta. Silêncio absoluto. Tornaram a bater, com violência, depois. Nenhum rumor, nenhum

sinal de vida. Forçaram a porta: estava fechada a chave. Certos já de um sombrio acontecimento,

resolveram arrombá-la. Para fazê-lo, chamaram a polícia e testemunhas e, ao primeiro golpe da machado

que um soldado vibrara, a fechadura saltou. A escuridão no interior era quase completa. Abriram

imediatamente as janelas: o misterioso peregrino havia desaparecido e, em seu lugar, uma imagem do

Senhor do Monte Alverne, de tamanho natural, pregado à cruz, encheu de pasmo e de deslumbramento a

todos os presentes, tal a sua maravilhosa perfeição.

Acreditou-se logo que o peregrino não era senão um santo, que realizara aquele milagre. A nova correu

célere pela cidade. E de todos os pontos, numa verdadeira romaria, vinha gente ver a imagem, que poucos

dias depois foi transportada, com grande solenidade, para a igreja de São Francisco de Assis, onde até

hoje se acha, no respectivo altar-mor.

Trabalho Literário de Lincoln de Souza

A CASA DA PEDRA

Era naqueles velhos tempos coloniais em que paulistas e portugueses - estes apelidados emboabas, uns ao

norte e outros ao sul, rasgavam a extensa província das Minas Gerais, à cata do ouro.

Em São João del-Rei, emboabas e paulistas, cada qual de seu lado e por sua conta, se entregavam à

mineração aurífera, sendo capitão-mor, na época, Diogo Mendes que, em companhia da filha e de

Fernando, seu sobrinho e secretário, residia no local que é hoje o arraial de Matosinhos.

Entre os paulistas - segundo conta Bernardo Guimarães em seu livro "Maurício ou os Paulistas em São

João del-Rei" - havia um, de nome Gil, rapaz antes trabalhador, mas desprotegido da fortuna, que passou

a enriquecer a olhos vistos, depois que foram para sua companhia um bugre, por ele salvo da morte após

um sério conflito entre paulistas e aborígines, chamado Irabuçu, e Judaíba, sua filha.

Propalava-se que Irabuçu sabia de uma fabulosa mina onde, diariamente, apanhava ouro aos punhados,

para levar ao seu salvador. Um dos portugueses pelo patrício apelidado Minhoto, que votava a Gil ódio

tremendo, entendeu de deitar as mãos ao velho índio, auferindo com isso dois proveitos: - ficar senhor da

mina, aonde o selvagem o conduziria sob ameaça de morte, e fazer mal ao inimigo, estancando-lhe a

fonte de riqueza.

Sem demora, tratou de pôr em execução o plano que havia traçado. Aliciou patrícios, que sitiaram o índio,

quando uma tarde partia para a mina, mas este desapareceu como por encanto sob uma moita, de onde

saiu, numa carreira fantástica, um enorme gato do mato, que pôs os portugueses em debandada, julgando

o índio transformado em animal. Outras ciladas lhe prepararam o Minhoto, mas em vão. Irabuçu, cercado

no campo, sem possibilidade de escapar, quando todos o imaginavam seguro, desaparecia

misteriosamente. Ninguém mais, então, queria saber de capturá-lo, julgando-o pactuar com o demônio. À

vista disso, o Minhoto foi à casa do capitão-mor, a fim de, com a gente deste, destemida e bem

municiada, aprisionar Irabuçu, repartindo entre ele, o capitão-mor e o secretário o ouro recolhido da mina.

Recebeu-o Fernando, o qual, depois de ouvi-lo com interesse, fê-lo ciente de que o ouro da mina seria

todo de el-rei, não cabendo a ele Minhoto, um grão sequer. E sem reparar no desespero do patrício, que se

julgava miseravelmente roubado, deu ordens para que lhe trouxessem Irabuçu, a fim de que este revelasse

local da mina de onde saia o ouro, sem que a el-rei fosse ter o devido quinto.

Preso Irabuçu e levado à presença do capitão-mor e sua gente, negou-se ele a fazer qualquer declaração a

respeito, muito menos a levá-los à mina. Ameaçaram-no de suplícios horríveis e, por fim, de morte. Nada

o demovia de sua firme decisão. Foi só ante a ameaça de torturarem sua filha Judaíba que Irabuçu

aquiesceu.

Amarrado como uma fera, lá foi ele, o pobre velho, escoltado por seis portugueses, armados até os dentes,

em direção ao fabuloso Sésamo.

Depois de penosa caminhada de léguas e léguas, feita com o propósito de despistá-los, porquanto a mina

distava da povoação apenas alguns quilômetros, chegaram, por fim, ao cair da noite, em frente a uma

grande furna muito alta, cujo interior.

Cedamos, porém, a pena a Bernardo Guimarães, que vai, no seu estilo vigoroso, descrevê-la e narrar a

trágica aventura dos portugueses e do índio no interior dessa furna, conhecida hoje por Casa da Pedra:

“Irabuçu acendeu na fogueira o seu archote e foi entrando pela caverna”. Os emboabas o acompanharam

de perto, benzendo-se e rezando quanta oração sabiam.

Para fora da lapa nada mais se via; a escuridão da noite, que começava a descer, e a fumaça da fogueira

tudo escondia. Estavam segregados completamente da luz do céu, e franqueavam os lôbregos umbrais do

reino das trevas.

Acompanhemo-los e vamos também admirar, à luz do archote de Irabuçu, as maravilhas dessa imensa e

misteriosa gruta.

O pavimento é plano, liso, coberto de areia e de folhiço, como um solo de aluvião; os emboabas penetram

com facilidade pela gruta adentro. Logo à entrada, entre os brancos pilares da arcada imensa, que serve de

pórtico aos outros, observa-se um curioso e estupendo fenômeno, Um enorme rochedo está como

pendurado da abóbada, à semelhança de lustre colossal, colocado à entrada daquele templo subterrâneo.

Mas o monstruoso lustre está envolto em crepe pardacento, suas luzes estão extintas, e é mister brandir o

archote em volta dele para admirar-lhe as dimensões titânicas, e ver como se acha preso à cúpula por um

ligamento proporcionalmente tão delgado, que faz estremecer. Está ali como a espada de Dâmocles,

suspensa por um fio, aquela massa enorme de milhares de quintais, como ameaçando esmagar, pulverizar

com sua queda os imprudentes mortais que ousarem passar-lhe por baixo, para devassarem os mistérios

daqueles adidos tenebrosos.

Mas Irabuçu e seus companheiros não estão ali para admirar semelhantes maravilhas; passam por debaixo

do imenso candelabro sem prestar-lhe atenção, internam-se mais alguns passos, e acham-se no recinto de

um vasto salão, amplo e circular, à maneira da nave de magnífica rotunda. Curvava-se sobre suas cabeças

uma abóbada de pasmosa elevação, e, de profunda que era, mal seria apercebida ao fraco clarão do

archote, se não fora o cintilar das pedras úmidas, polidas e pontiagudas, de que estavam crivados o teto e

as paredes da gruta.

A luz daquele archote demasiado escassa para alumiar tão vasto recinto, o interior da lapa, já de si mesmo

curioso e surpreendente, tomava um aspecto solene e fantástico, que inspirava, a um tempo, pavor e

assombro. Os muros e a abóbada pareciam cobertos de ornatos e esculturas caprichosas, de frisos, relevos,

cornijas, colunas, nichos e volutas em desordenada profusão. Aqui se via um altar mutilado; ali se cavava

no muro um trono em ruínas; além ressaltava da parede um magnífico púlpito; mais além um renque de

colunas decepadas se estendia a perder-se na escuridão. E tudo isso se revestia de brilhantes e variadas

cores reverberando à luz do facho com reflexos de ouro e rubis, de esmeralda e safira, de topázio e

ametista.

Era uma gruta de estalactites, curioso brinco, em que a natureza parece comprazer-se dando as mais

singulares e caprichosas figuras a essas rochas formadas no côncavo das cavernas pela congelação de

gotas de águas infiltradas durante séculos através das fendas dos rochedos.

Além de tudo isso, uma multidão de cordas de grossura enorme descendo perpendicularmente da

abóbada, em uma altura talvez de mais de vinte braças, vinham embeber-se no chão. Dir-se-iam cordões,

que suspendiam imensas cortinas destinadas a velar os mistérios daquele estupendo e maravilhoso

santuário. Eram raízes de árvores seculares, que, cravando-se pelas fendas da abóbada e achando em

baixo o espaço vazio, alongavam-se até o solo, onde vinham beber a seiva, para alimentar a robusta e

vicejante selva, que cobrindo o corixeu da gruta, balanceava lá em cima - a mais de cinqüenta braças de

altura - a coma verde-negra às auras livres do céu. Em tudo se parecia aquele antro com o interior de um

templo ciclópico, por onde roçara a asa estragadora dos séculos, ou passara a mão vandálica do bárbaro,

destroçando e mutilando tudo.

A luz avermelhada do archote batendo nas miríades de pontas de estalactites, que incrustavam toda a

abóbada, reverberando em chispas cintilantes, produzia o mais deslumbrante efeito. Os portugueses não

puderam conter um grito de surpresa e assombro, e estacaram por instantes diante de tamanha maravilha.

- Que é isto, santo Deus!. - exclamavam uns. Tudo isso é ouro e pedraria!. é aqui!. Estamos enfim na

mina.

Outros, porém, pensavam estar em um palácio de fadas, e acreditando que o bugre não era mais do que

um formidável encantador, começou a tremer por sua sorte, receando ali ficarem encantados por todo o

sempre.

Para se moverem foi mister que Irabuçu os acordasse daquela estupefação. Já dois fachos se tinham

consumido, e não havia um minuto a perder.

O índio avançou contornando o vasto salão, como procurando entrada a outros aposentos. Viam-se, com

efeito, em torno aqui e acolá, grande número de fendas e arcadas de várias dimensões corredores que se

perdiam na escuridão, e pareciam dar entrada a novos e vastíssimos compartimentos. O bugre penetrou

pelo mais espaçoso desses corredores, seguido de perto pelos portugueses. Via-se de um lado, suspenso

na muralha, um púlpito quase perfeito, de linda e grandiosa estrutura. Os emboabas cuidaram ver dentro

dele um monge de joelhos e debruçado, com a fronte envolta em seu capuz. Já se ajoelhavam e

persignava, quando subitamente troou-lhes aos ouvidos uma voz horrível, antes um pavoroso mugido.

- Tupassumunga! - bradara Irabuçu com toda a força de seus pulmões. Os ecos das profundas cavidades

reproduziram por largo tempo o grito estranho, em surdos e temerosos rugidos.

Imediatamente dois sanhudos e truculentos canguçus, rompendo das grutas interiores, passaram velozes

como o raio por entre os portugueses, e desapareceram de novo na escuridão.

De susto ou abalroados, quase todos caíram por terra, e trêmulos, cobertos de suor gélido, não pensaram

senão em encomendar a alma a Deus.

- Não tenham medo, meus brancos! - disse Irabuçu, com um sorriso calmo e satânico; estes bichos moram

aqui; são uns gatinhos que vigiam o ouro de Tupan; foi para tocá-los para fora que Irabuçu gritou.

Estas palavras, proferidas em tom de diabólica ironia, não eram muito próprias para tranqüilizar os

emboabas.

- Se temos de morrer sem falta, - murmurou um, com voz desfalecida - é melhor morrermos aqui mesmo;

daqui não dou nem mais um passo para diante.

- Se temos de morrer - replicou outro, um pouco mais animado - tanto faz morrer aqui como acolá;

vamos, companheiros!. Pelo que vejo, já estamos no inferno em corpo e alma, e tão inferno é aqui como

lá mais adiante.

O terror, tendo tocado ao seu cúmulo, converteu-se em coragem, como sói acontecer, nessa coragem dos

que se julgam irremissivelmente perdidos, e que se chama coragem do desespero.

Guiados pelo índio, os emboabas avançaram resolutamente através de um dédalo de furnas, corredores,

escaninhos irregulares, em que se achava dividida a gruta, à maneira de alvéolos de uma colméia

gigantesca. Esses diversos compartimentos eram separados entre si por grossas massas de estalactites, que

pendendo do teto vinham quase tocar ao chão, como feixes de colunas carcomidas pela base, ou como os

canudos de um órgão emborcado, e também por grandes camadas de estalagmites, que se erguiam do solo

como restos de pilastras derruídas, ou de muros arruinados.

Já o terceiro facho estava prestes a extinguirem-se, ainda eles não haviam chegado ao tão suspirado alvo

de tamanhas fadigas e perigos.

- Ainda estará muito longe essa maldita mina? - bugre endiabrado!. - bradou um dos emboabas. - Olha,

não vá nos faltar o lume! Se ficarmos às escuras não sei como daqui nos havemos de safar.

- Ficaremos sepultados em vida debaixo destas catacumbas, - acrescentou outro. -Voltemos meus caros;

isto não vai bem.

- É ali! É ali!. - exclamou Irabuçu, apontando para uma solapa estreita, que se divisava a alguns passos de

distancia, na base de um enorme congesto de estalagmites, e pela qual mal poderia entrar um homem

agachado.

- Ali!. Naquele buraco! Deus me defenda de lá entrar!. ali só lagarto ou cobra.

Apenas um dos emboabas acabava de proferir estas palavras, desprega-se da abóbada e cai no meio deles

uma jibóia enorme, de mais de braça de comprida e grossa como a perna de um homem, fazendo um

ruído surdo como corda que despenca do alto de um mastaréu, e desdobrando-se rapidamente correu a

esconder-se nas trevas, entre as anfratuosidades dos rochedos. O medonho réptil acordara sobressaltado

pelo eco daquelas vozes estranhas e, deslumbrado pela luz, querendo fugir, se precipitara de uma alta

cornija, onde estava a dormir tranqüilamente. Os portugueses murmuravam a tremer a oração de São

Bento, advogado contra animais venenosos, e perderam de novo o ânimo de avançar.

- Meu Deus! Meu Deus!. Que será de nós!. exclamavam, quase a chorar de medo;Se essa mina está

lá nas profundezas dos infernos, guardada por tigres e serpentes, escusado é procurarmos lá ir. -

Voltemos, meus amigos!. isso não está nada bom! -Voltemos quanto antes! - Irabuçu, meu velho, por

piedade, tira-nos daqui para fora; deixemos isto para amanhã. Livra-nos deste inferno!

- Essa cobra não tem veneno - respondeu tranqüilamente Irabuçu; - aqui há muita; é bom dar um tiro; elas

fogem espantadas e não incomodam mais a gente.

- Pois vá! - disse um deles; e, sem refletir, trêmulo de impaciência, de frenesi e de terror, com mão

convulsa engatilhou a escopeta e disparou o tiro.

O eco refrangido de gruta em gruta reboou como uma descarga atroadora; o ar agitou-se convulsionado; a

chama do facho oscilou violentamente, e as sombras, que ali estavam, dançaram pelas paredes como um

grupo de duendes. Uma nuvem de morcegos e corujas surdindo de todos os cantos revoou em turbilhões,

açoitando com as asas as faces daqueles hóspedes imprudentes, e acabaram por apagar completamente o

facho, que ardia na mão de Irabuçu. Acharam-se todos subitamente mergulhados na mais completa e

profunda escuridão!

Os ecos do tiro, prolongando-se andam largo tempo em lúgubres mugidos pelas abóbadas soturnas,

pareciam estar entoando um fúnebre de profundos sobre aqueles infelizes ainda vivos e já envoltos na

escuridão dos túmulos.

Acode-nos Irabuçu!. só tu nos podes salvar!. vem dar-nos a mão!. por piedade, vem livrar-nos deste

inferno!. Estas e outras exclamações faziam os míseros emboabas com voz tão suplicante e lastimosa, que

cortaria o coração de outro qualquer que não fosse Irabuçu.

;Irabuçu aqui vai!. Acompanhem!. respondeu uma voz sepulcral, que parecia romper das entranhas da

terra.

Irabuçu! Irabuçu! - bradavam ainda míseros, estorcendo-se nas ânsias do desespero.

“Mas só lhes respondiam os ecos das cavernas subterrâneas remurmurando uns sons confusos e

medonhos.”

E dizem que, mais tarde, um sábio dinamarquês procedia a estudos mineralógicos no interior da Casa da

Pedra, quando foi dar, numa sala estreita, profundamente escura, que a luz de um archote mal iluminava,

com as ossadas muito brancas dos sete desgraçados sobre as quais enormes serpentes deslizavam de

manso.


 
 

   

 


 



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Paulo Rivetti

Unimed São João Del Rei

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